Ex-sede do Ministério da Educação é uma galeria de arte a céu aberto

O lado gauche e liberto de Carlos – com seus poemas de sete mil faces – convivia com seu oposto, de terno, gravata e relógio de ponto, que dava expediente na burocracia do serviço público. Ele chegara ao Rio, vindo do município mineiro de Itabira, em 1934, para trabalhar no Ministério da Educação, alojado no Edifício Rex, na Rua Álvaro Alvim, Cinelândia.

Uma década depois, o órgão migrou para um prédio de 16 andares, que se transformaria no marco de virada da moderna arquitetura brasileira. Projetado por um grupo formado por Oscar Niemeyer, Affonso Reidy, Carlos Leão, Ernany de Vasconcelos e Jorge Moreira, sob a coordenação de Lúcio Costa e a consultoria de Le Corbusier, o Palácio Gustavo Capanema provocou um forte impacto na paisagem da Esplanada do Castelo.

A construção apresentava as principais referências corbusianas: pilotis, planta e fachada livres, terraço-jardim e as esquadrias em brise-soleil, capturando a ventilação e a luz naturais através de lâminas horizontais móveis. Drummond, chefe de Gabinete do então ministro Capanema, anotou em seu diário: “Dias de adaptação à luz intensa, natural, que substitui as lâmpadas acesas durante o dia (…) Das amplas vidraças do 10o andar descortina-se a baía vencendo a massa cinzenta dos edifícios. Lá embaixo, no jardim suspenso do Ministério, a estátua de mulher nua de Celso Antônio, reclinada, conserva entre o ventre e as coxas um pouco da água da última chuva, que os passarinhos vêm beber, e é uma graça a conversão do sexo de granito em fonte natural. Utilidade imprevista das obras de arte”.

À arquitetura vanguardista da edificação, suspensa por colunas de dez metros de altura – o pilotis funciona como um pátio para a circulação pública –, incorporava-se o conjunto de paisagismo (por Burle Marx), pinturas e esculturas. Na galeria de arte a céu aberto do térreo, destacam-se os painéis de azulejaria de Cândido Portinari. As composições alusivas a um imenso aquário marinho na fachada levou o também poeta Vinicius de Moraes a escrever os versos de “Azul e branco”: “Na verde espessura do fundo do mar / Nasce a arquitetura / Da cal das conchas / Do sumo das algas…”

Portinari também assina, no mezanino, 12 afrescos, representando ciclos econômicos do Brasil, no espaço que hoje leva seu nome; e os murais “Primeira aula do Brasil” e “Aula de canto”, no Salão de Conferências Gilberto Freyre, destinado a recitais de música de câmara e sessões de cinema. Ao lado, encontra-se o Salão de Exposições Carlos Drummond de Andrade, que dá acesso a um terraço-jardim.

A partir de 1946, Drummond passou a trabalhar como chefe de arquivo do então Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Sphan). Ali – enquanto titulava com caneta hidrocor envelopes devidamente catalogados com as informações sobre lugares e pessoas –, o poeta conheceria, cinco anos depois, a bibliotecária Lygia Fernandes. Ela foi sua amante até 1987, quando perdemos Carlos, o gauche.

Palácio Gustavo Capanema
Rua da Imprensa, 16 – Centro
Tel.: (21) 2240-3344