Restaurante português centenário foi reduto da rainha negra da Lapa

Um soco arrasador com a mão esquerda era a marca registrada de João Francisco dos Santos, nascido na longínqua Glória do Goitá, Zona da Mata pernambucana, em 1900. Com esse recurso e golpes de capoeira, criou fama por peitar a polícia em defesa de travestis e meretrizes na Lapa, onde na juventude trabalhava como garçom, cozinheiro e segurança. Preto, pobre e homossexual, foi preso por atirar em um vigia, que o provocou enquanto jantava num boteco. Após sair da cadeia, João começou a caminhar on the wild size, enfrentando muitos processos por homicídio, furtos e agressões.

Por ser um excelente nadador, recebeu a alcunha de Caranguejo da Praia das Virtudes, um recanto da antiga Praia da Santa Luzia, no Centro. Por essa época, era a rainha negra da boemia. No carnaval de 1938, ganhou o concurso do bloco de rua Caçadores de Veados, com uma fantasia logo associada à “Madame Satã”, personagem do filme homônimo de Cecil B. DeMille. Nascia ali a figura legendária da vida noturna e marginal da Lapa. Com o indefectível chapéu panamá, fazia a ronda dos cabarés, pensões e restaurantes, como o Capela (depois, Nova Capela), onde artistas, intelectuais, políticos e a nata dos bebuns costumavam encerrar a noitada.

Aberta em 1903, até hoje a casa portuguesa prima pelos pratos de sustança, capitaneados pelo imbatível cabrito assado com arroz de brócolis, batatas coradas e alho frito. Antes, para abrir o apetite, entre caldeiretas de chope, são servidos bolinhos de bacalhau e aperitivos de filé de peixe ao molho tártaro no salão de inspiração Art déco, revestido de azulejos e fotos antigas. Na sequência, a fartura vai de polvo grelhado e escalopes de filé ao molho madeira a salsichão com salada de batatas. Vale lembrar que lá foi criada a famosa guarnição à francesa (cebola, presunto, ervilha e batata palito fininha) por um cliente conterrâneo de Brigitte Bardot.

Mas nem só de ter saciado a fome e a sede de Madame Satã e uma profusão de notívagos vive a história do Capela, que, em 1955, foi palco de uma cena que entrou para os anais da MPB. Provocado por Geraldo Pereira – que tinha quase 1,90 m e a fama de assumir ares de valente quando bebia –, Satã desferiu sua canhota fulminante no compositor de “Acertei no milhar”. Geraldo precisou ser internado e faleceria no hospital. O golpe teria agravado um quadro de saúde já bastante debilitado do sambista.

Mais sofisticado que o escritor Jean Genet em suas andanças pelo bas-fond parisiense – na analogia de Paulo Francis –, Madame Satã passou 27 dos 76 anos de vida preso. Inclusive na Ilha Grande, em Angra dos Reis, onde, já livre, costumava pescar com Ivo Pitanguy. “Sua experiência nas mais tortuosas marés da vida lhe haviam ensinado lugares onde encontrar robalos, que voltavam sempre às mesmas tocas”, chegou a recordar o ilustre cirurgião. E, em matéria de toca, o Caranguejo da Lapa era doutor.

Nova Capela
Avenida Mem de Sá, 96 – Centro
Tel.: (21) 2252-6228