Um banho de história dos séculos XVIII e XIX nas ruas da Zona Portuária

De segunda a sexta, Yvonne dirige seu carro sozinha da Praia do Flamengo, onde mora, até o Complexo da Maré. Lá funciona, desde 1998, o Projeto Uerê, idealizado pela filóloga para atender crianças e jovens com bloqueios cognitivos derivados da exposição constante à violência. Nas folgas dessa intensa rotina, quando não está ministrando palestras no Brasil e no exterior sobre a internacionalmente premiada pedagogia da escola-modelo, ela adora passear na Gamboa.

O programa pode começar com uma caminhada sem pressa pelas ruas do bairro da Zona Portuária, que tem passado por um processo de revitalização urbana, em meio a velhas gráficas e tipografias e galpões comerciais. “Gosto de admirar o casario que integrou o conjunto de palacetes e chácaras nos séculos XVIII e XIX, com exemplares de azulejaria portuguesa e serralheria francesa”, relata Yvonne. Desenvolvida ao redor de uma colina próxima ao porto, a Gamboa era a região preferida dos homens de negócios britânicos que se estabeleceram na capital do Império. A ponto de ter recebido o Cemitério dos Ingleses, o mais antigo do Brasil ainda em atividade, e suas belas esculturas.

A necrópole integra a respeitável lista de bens locais tombados pelo patrimônio, como Túnel João Ricardo (pioneiro na cidade), Centro Cultural José Bonifácio (palacete em estilo renascentista que abrigou a primeira escola pública do Brasil), Fortaleza Militar da Conceição, Igreja Católica de Nossa Senhora da Saúde e Praça da Harmonia, onde fica o histórico prédio de fachadas vitoriana e neoclássica do Moinho Fluminense. Há, também, a Pedra do Sal (berço do samba) e o Jardim Suspenso do Valongo, dois ex-entrepostos negreiros.

“A Gamboa é um território sagrado – frisa Yvonne. Muitos escravos morreram ali. Gosto de ir ao Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, que dispõe de uma biblioteca especializada na temática afro-brasileira e de uma galeria de arte contemporânea, sempre com ótimas exposições. Outra linda galeria que frequento é a Metara, na Sacadura Cabral. Nesta mesma rua, adoro dançar no Trapiche Gamboa, instalado num espetacular sobrado de três andares de 1857. Tem uma música maravilhosa, referência de rodas de samba como a dos antigos terreiros.”

Um giro pelo bairro não deve deixar de fora a Sociedade Dramática Filhos de Talma. Fundada em 1879, foi uma das primeiras escolas de teatro do País e onde nasceu o Clube Vasco da Gama. Hoje, oferece galeria de arte, sessões de cinema, oficinas de interpretação e música e uma programação de samba, choro e jazz. Não esqueça também de conhecer a Cidade do Samba Joãozinho Trinta, sede da indústria do carnaval carioca, em frente ao Armazém 11 do Cais do Porto. Você vai sair da Gamboa com a incrível sensação de ter tomado um banho de história sobre o Rio de Janeiro.

Gamboa
Limites do Centro, Santo Cristo e Saúde