Sobrado onde morou Portinari é a mais antiga adega da cidade

Considerado patrimônio cultural carioca pela Prefeitura, o estabelecimento inaugurado em 1938, no mesmo prédio em que morou o pintor Candido Portinari, ostenta o título de adega mais antiga da cidade. No auge da boemia na Lapa, a mercearia na Rua Teotônio Regadas reunia grupos atraídos pelos bons vinhos e por petiscos degustados em volta de barris.

Com o passar dos anos, o armazém deu lugar à Adega Flor de Coimbra, referência de gastronomia portuguesa, com decoração retrô original. Hoje, a clientela – entre eles o pianista Nelson Freire – devora semanalmente 50 kg de bacalhau, uma parte transformada nos famosos bolinhos “ao comprido” e outra em pratos à moda Flor de Coimbra, Gomes de Sá, Minhota ou desfiado com arroz de brócolis.

Mas pescada ao molho de limão, truta com alcaparras, costelinha suína, lombinho, frango à campanha, penne ao molho pomodoro e até feijoada também fazem bonito. Para arrematar em grande estilo, os célebres doces lusitanos, como toucinho do céu, com recheio de creme de amêndoas; pastel de Santo Antônio, que encanta pela maciez e pelo recheio de banana; e pastel de Belém, polvilhado de açúcar e canela.

O restaurante foi por muito tempo conhecido pela mensagem exibida no cardápio – “Nos desculpem os casais, pois aqui são proibidos os beijos ousados”. A história começou quando o Rio perdeu a condição de capital do País. Esse processo culminou com o declínio da Lapa, que se transformou num ponto de prostituição. “Meu tio tinha uma lógica. A proibição significava uma forma de preservar os próprios clientes”, explica João Batista Morais, sobrinho do fundador, que administra a casa desde 1987.

E a regra era seguida com todo rigor pelos garçons, que afastavam os casais ao menor sinal de aproximação. Quando o português de Trás-os-Montes, José Lourenço, passou a adega para João, fez algumas exigências, como não vender cerveja e manter a decoração típica de uma adega de sua terra natal. Sobre os beijos, nada disse, mas o sobrinho decidiu manter o folclore. “Com um adendo: liberei os beijinhos, mas não os ousados”, ressalva. Ah, sim, e as “louras” geladas também correm soltas pelas mesas.