Revolta descrita em “Policarpo Quaresma” envolve igreja na Rua do Ouvidor

Nascido em 13 de maio de 1881, portanto exatos sete anos antes da promulgação da Lei Áurea, Afonso Henriques de Lima Barreto, descendente de escravos, logo constatou que a discriminação racial não se libertaria do papel assinado pela Princesa Isabel. Observador agudo, ele converteria os preconceitos que o acompanharam pela juventude, bem como as mazelas sociais do povo carioca, num retrato sem retoques da sociedade do início do século XX.

A mãe era professora e o pai, um tipógrafo monarquista, amigo do Visconde de Ouro Preto, que se tornou padrinho do futuro repórter e escritor, garantindo-lhe uma educação acadêmica de qualidade. Em 1905, Lima Barreto já escrevia uma série de reportagens no Correio da Manhã – acerca da demolição do Morro do Castelo pela prefeitura –, consideradas um dos marcos inaugurais do jornalismo literário nacional. Em seguida, iniciou também a colaboração em outros periódicos, por meio de crônicas e sátiras desenroladas num cenário invariável: a região central e os subúrbios do Rio de Janeiro. Essas impressões da vida urbana também constariam em seu “Diário íntimo”, editado postumamente.

Em 1911, ele publicou “Triste fim de Policarpo Quaresma” em folhetins no Jornal do Commercio. O romance – depois lançado em livro e entronizado como o principal expoente do pré-modernismo – representava uma crítica satírica à sociedade e ao modelo político da República Velha. Descrevia a Revolta da Armada, insurreição de marinheiros que, em 1893, pretendiam derrubar o presidente Floriano Peixoto.

Foram travados diversos combates em fortalezas e monumentos próximos à orla da cidade, como o da Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores, na Rua do Ouvidor. Durante os bombardeios, um tiro disparado por um encouraçado acertou a torre sineira, derrubando a imagem da santa, que, no entanto, foi pouco danificada – um verdadeiro milagre, considerou-se à época.

Hoje, estátua e projétil estão expostos na sacristia. Na torre, foi implantado o primeiro carrilhão da cidade, composto por 12 sinos fundidos em Lisboa.

A igreja remonta a um oratório construído, em 1743, por comerciantes prósperos da região, que formaram uma irmandade para a fundação de um templo sob a invocação de Nossa Senhora da Lapa. Na segunda metade do século XIX, sofreu obras de remodelação. A entrada passou a ser feita através de uma galilé (espaço exterior coberto) com três arcos e cercada por grades de ferro. No segundo nível da fachada, três janelas com balaústres em cantaria se abrem até o chão. Sobre o frontispício, que ostenta um relógio central, desponta a torre única. Com planta elíptica, o templo é iluminado por claraboia em suas duas cúpulas, sobre a nave e a área do altar.

A igreja merece uma visitação, seguida de um bordejo pelo entorno histórico, entre as Ruas do Mercado e Primeiro de Março, tão bem descrito por Lima Barreto. Após várias internações em hospícios, o grande cronista do Rio morreria em 1922, de colapso cardíaco, aos 41 anos, em sua casa, no bairro suburbano de Todos os Santos, cuja rotina ele eternizou em sua literatura, a melhor tradução do Rio.

Igreja Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores
Rua do Ouvidor, 35 – Centro
Tel.: (21) 2509-2339