Escavações na Igreja Nossa Senhora do Carmo levaram à criação de Museu Arqueológico

A febre de suspender os copos de vinho com uma das mãos e girá-los pela haste no espaço, examinando-os contra a luz, ainda nem tinha dado o ar da graça nas mesas do Rio. E ela, pupila do renomado Danio Braga, já havia se formado em sommelière – que se não existia como profissão para homens na década de 80, imagine para as meninas! Daí a tornar-se a primeira bartender brasileira, no balcão do Quadrifoglio do Jardim Botânico, foi um pulo.

Papisa das taças, Deise Novakoski adora flanar pela Praça XV, o outrora Largo do Paço. “Foi onde tudo começou, quando D. João VI ali desembarcou com Carlota Joaquina e juntos começaram a escrever o capítulo mais esfuziante da nossa história. A Praça deveria ser o marco zero da cidade. Gosto de ir ao restaurante Albamar, instalado na única torre-silo remanescente do Mercado Municipal, demolido nos anos 60. De lá se avista a Ilha Fiscal, cenário do último baile do Império.”

Motivos não faltam para explorar o quadrilátero. A começar pelo Paço Imperial, sede do governo de D. João VI e palco do famoso discurso do “Dia do Fico” e da assinatura da Lei Áurea. No entorno do belo centro cultural organiza-se, aos sábados, uma feira de antiguidades na qual se encontra o impensável, de objetos a roupas, passando por livros e brinquedos.

A partir da inauguração da Orla Conde, em 2016, revitalizando a região, ganhou destaque a Igreja Nossa Senhora do Carmo. Requisitada por D. João, em 1808, para ser a Capela Real, a Antiga Sé recebeu a coroação de D. Pedro I e D. Pedro II, além do casamento da Princesa Isabel com o Conde D’Eu. Por ocasião das comemorações dos 200 anos da chegada da Corte, em 2008, o templo foi reentregue à população totalmente restaurado. A talha dourada, de 1785, estava encoberta por camadas de crostas negras, formadas pela fumaça dos veículos que transitam na Rua Primeiro de Março.

Sob o assoalho, as escavações revelaram vestígios de cinco edificações diferentes, como a chamada capela vermelha (por causa do barrado rubro), provavel­mente do século XVI ou XVII. E, também, o trecho de uma paliçada, que pode ter sido feita por ocupantes portugueses ou franceses para defesa contra invasões – o único exemplar desse tipo de construção encontrado no Rio. A importância da coleta de 30 mil peças levou à criação do Museu Arqueológico da Santa Sé, deixando-se parte dos locais escavados aberta à visitação.

Outro monumento histórico se refere ao Chafariz do Mestre Valentim, implantado em 1789 para melhorar o abastecimento de água dos navios atracados e da população. “De braços abertos para o Centro da cidade, é possível circundar a Praça XV até o dedo encostar na montanha do vizinho – o município de Niterói. Foi caminhando ali, tomando um café na Tabacaria Africana, que aprendi a amar o Rio de forma incondicional”, derrete-se a paulistana que conquistou uma legião de clientes-fãs na cidade com sua simpatia tipicamente carioca.

Praça XV – Centro