Concentração de história num recanto aprazível do Rio

Se há alguém que soube alinhar a excelência do formalismo técnico com a ludicidade da música popular, esse alquimista é Carlos Sabóia Monte. A sensibilidade para equilibrar no passado as funções de diretor do Grupo Multiplic e diretor Cultural da Portela marca o engenheiro boa praça. Com o olhar poético, ele guarda cheio de afeto um canto especial no Rio: o Largo da Glória.

“Morei na Rua do Russell, no Edifício Perigord, dos dois aos 14 anos de idade. Ainda bem pequeno, passeava na Praça Paris, projetada em 1926 pelo arquiteto francês Alfred Agache, sob a inspiração do traçado dos jardins parisienses, com suas esculturas e obras de arte. E ia à missa com minha mãe na Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro. Construída no século XVIII, em seu entorno se intensificou o povoamento do bairro. Chegávamos até a colina por um elevador funicular, um ascensor alternativo à subida da ladeira antiga o qual existe ainda hoje.”

Ele prossegue: “Em frente à sede da Sociedade dos Engenheiros e Arquitetos do Estado do Rio de Janeiro (Seaerj) – da qual meu pai foi sócio fundador e que abriga um Centro Cultural para preservação da memória das obras realizadas aqui – havia uma feira livre. Eu costumava ir lá com meu irmão mais velho, comprar artigos como sabão, palha de aço, vassoura, que se vendiam então nesse comércio de rua.” Nos tempos atuais, encontra-se aos sábados uma simpática feirinha de produtos orgânicos.

Carlos – que ostenta o título nobiliárquico de pai da cantora Marisa Monte – cita outro símbolo do bairro: o relógio de quatro faces e mostradores luminosos da Glória. O monumento, inaugurado em 1905 e protegido pelo Instituto Estadual do Patrimônio Artístico-Cultural (Inepac), é composto por uma coluna cilíndrica de gnaisse, ornamentada por dois cordões perolados. Na placa da base, avistam-se as armas da cidade, com quatro florões.

“Na praça, destaca-se, ainda o busto de Getúlio Vargas. Ali, foi instalado um museu subterrâneo com o acervo do ex-presidente. Ao lado, na Rua Benjamin Constant, há a Igreja Positivista do Brasil, edificada entre 1891 e 1896 e que recentemente passou por uma restauração completa no telhado.” Fundada pelo filósofo Miguel Lemos, seguidor do pensamento de Auguste Comte – corrente que no Brasil propulsionou a Proclamação da República –, suas belas linhas arquitetônicas remetem ao neoclássico Pantheon de Paris. A construção e o acervo do chamado Templo da Humanidade (livros, documentos e obras de arte) são tombados pelo patrimônio público.

Na esquina da Benjamin Constant, situa-se o imponente Palácio São Joaquim. Inaugurado em 1918, como sede da Mitra Arquiepiscopal, hospedou o Papa Francisco em sua estada na cidade, em 2013. Para arrematar a incursão no Largo, não pode faltar uma pausa na tradicionalíssima Taberna da Glória, outro ponto referenciado por Carlos Monte. O importante é deixar-se embriagar pela poesia das ruas.

Largo da Glória – Glória