Café-bistrô Cravo Bem Temperado adiciona mais sabor à programação

Ele é o samba, sim senhor – o produtor de nove entre dez discos dos maiores nomes do ritmo tipicamente carioca. Mas foi entre as paredes clássicas da Sala Cecília Meireles que o jovem Rildo Hora aprimorou sua formação musical. “Em meados da década de 1960, eu não sabia escrever partitura, mas tinha talento para improvisação. O compositor Guerra Peixe, meu professor, começou a me levar para a Sala, recém-inaugurada.”

O maestro recapitula: “O então novo templo da música culta – meu guru não gostava do termo erudito – se tornaria responsável por muitas ideias que me vêm quando faço orquestração de música popular. O trato de violinos e celos nos discos de Zeca Pagodinho, por exemplo, reflete isso. Toquei lá em muitos concertos e bienais de música contemporânea.”

Quase ninguém imagina que o nobre espaço teve uma origem plebeia. Mais precisamente, no Armazém do Romão, com entrada pelo Beco do Império, depois Rua Teotônio Regadas. No lugar da antiga mercearia, ergueu-se, em 1896, o luxuoso Grande Hotel da Lapa. A edificação de três pavimentos seria transformada, em 1941, no elegante Cinema Colonial, com capacidade para duas mil pessoas. Após duas décadas, o governador Carlos Lacerda, um ex-aluno de violino, desapropriou o imóvel para convertê-lo em um espaço de concertos. Em 1o de dezembro de 1965 – ano comemorativo do IV Centenário da cidade –, inaugurava-se a Sala Cecília Meireles.

E quem souber a razão de um teatro dedicado à música ter recebido o nome de uma poetisa ganha uma clave de sol. A iniciativa, polêmica à época, partiu do próprio Lacerda, amigo da consagrada escritora, que falecera no ano anterior. O crítico Walmir Ayala assim justificou a escolha: “Em poucos momentos de sua história, a poesia brasileira foi tão concebida sobre a música como na obra de Cecília Meireles. Raramente a palavra foi tanto harmonia, ritmo, afinamento.”

Em 2014, prestes a completar meio século e após quatro anos em obras, a Sala reintegrou-se à paisagem urbana, com a abertura do frontão para a Lapa. Não deixe passar em branco a antiga fachada lateral do Grande Hotel – composta por paredes de pedra com alizares originais de madeira –, descoberta durante a reforma.

No segundo piso, embora não muito difundido, o café-bistrô Cravo Bem Temperado está aberto ao público em geral. Além do precioso líquido preto (destaque para o afogatto, expresso com sorvete de creme e calda de chocolate), o lounge serve chás (como o masala chai, misturado a especiarias típicas da Índia) e chocolates. De comestíveis, torta de maçã integral com nozes, pastéis de Belém, croissant misto, panquequinhas com gergelim na massa, burrecas vegetarianas e até almoços de dar água na boca. E o que não faltam são opções para uma esticada após os concertos, como sinaliza Rildo: “Quando vou lá, dou um pulo no vizinho Bar do Ernesto, que serve chope de boa qualidade.” E sob as bênçãos de Bach & cia.

Sala Cecília Meireles
Largo da Lapa, 47 – Centro
Tel.: (21) 2332-9223