Complexo de lazer de 1,2 milhão de m² guarda atrações recônditas

Culta, rica, ousada e amiga dos principais intelectuais brasileiros, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares nasceu em Paris, em 1910. Mas foi na Cidade Maravilhosa que deixou sua assinatura indelével. Estudiosa de artes e arquitetura, Lotta queria deixar um legado que marcasse seu nome. E vislumbrou essa oportunidade quando o vizinho de sua casa em Samambaia (Petrópolis), Carlos Lacerda – com quem conversava sobre rosas –, se elegeu governador do Estado da Guanabara em 1960.

Durante as comemorações pelo feito, no apartamento de Lacerda na Praia do Flamengo, o amigo, que apreciava sua inteligência, convocou-a para participar da equipe de gestão. Lotta apontou pela janela da sala, disparando: “Vou fazer ali um Central Park”. Com carta branca do chefe – numa área de 1,2 milhão de m2, que vinha sendo aterrada para a execução de pistas de automóveis e conjuntos de arranha-céus –, ela idealizou o monumental Parque do Flamengo.

Lotta presidiu com mão de ferro o grupo de trabalho formado para tocar uma concepção arrojada – desde os efeitos da iluminação que simulam a luz do luar ao paisagismo de Burle Marx. Inaugurado em 1965, o Parque é a um só tempo o cartão postal admirado por todos os cariocas e turistas e, também, um manancial de atrações recônditas. Ao lado dos espaços mais populares – MAM, Monumento aos Pracinhas, quadras esportivas – convivem outros pouco conhecidos.

A começar pelo próprio Deck Lotta de Macedo Soares, área de lazer incorporada em 2005. Os banquinhos da cobertura de ripas de madeira ecológica de 2.700 m2 sobre o rio Carioca propiciam ao visitante um panorama privilegiado da Baía de Guanabara. Além do Museu Carmen Miranda e do Pavilhão Japonês – inspirado na arquitetura nipônica e ocupado pela administração do Parque –, o gigantesco complexo de lazer inclui anfiteatro, teatro de marionetes, coreto e a Cidade das Crianças.

Caminhar ou pedalar pela imensidão verde é uma experiência única, mesmo que não se conheça a riqueza botânica pelo nome. Ela é composta por espécies nativas brasileiras e árvores exóticas de outros continentes. Essa harmonização garante que o frequentador do Parque assista a florações durante o ano inteiro, como as de abricó-da-praia (perto da Marina da Glória), pata-de-vaca (em frente ao Santos Dumont), pau-de-formiga (ao lado da passarela para o antigo Hotel Glória) e bombax, com maior concentração junto ao MAM.

A abundância da vegetação atrai uma grande diversidade de aves, cujo nome você provavelmente também ignore. Mesmo assim, seu passeio estará povoado por bandos – muitos escondidinhos entre as árvores – de canário-da-terra, joão-de-barro, galo-da-campina, bico-de-lacre, martim-pescador, garça-branca, gavião-carijó e tantos outros. Por todo esse patrimônio imensurável, que poderia estar hoje dominado por carros e espigões, o Rio será eternamente grato à Lotta, que faleceu em Nova York no ano de 1967.

Parque do Flamengo
Avenida Infante Dom Henrique, s/no