Desenhista gostava de caminhar no parque entre Ipanema e Leblon

Nem só de Arpoador – onde um monumento à beira-mar, assinado pelo arquiteto Jaime Lerner, o homenageia – viviam as flanagens do criador de Vão Gogo pela República Livre de Ipanema. Tantas vezes relegado a um segundo plano na hierarquia dos grandes parques da cidade, o Jardim de Alá era um território bastante pisado por Millôr Fernandes, para exercer seu livre pensar. A região abrange as praças Almirante Saldanha da Gama (entre as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá) e Grécia (junto à Lagoa Rodrigo de Freitas). Talvez não seja exagero afirmar que, devidamente cuidado pelo poder público, ele seria o nosso pequeno Jardim de Tuleries, que orgulham os franceses.

Atestado de bons antecedentes não lhe falta. Pois não é que até gôndolas, à imagem das venezianas, chegaram a ser adquiridas pela então prefeitura de Henrique Dodsworth para deslizar no canal divisor de Ipanema e Leblon e chegar à Lagoa Rodrigo de Freitas? O canal de 140 m de extensão, a propósito, foi construído anteriormente ao Jardim, nos anos 20, para conectar a Lagoa com o mar, oxigenando e mantendo a salinidade das águas, no intuito de aumentar a salubridade e reduzir o problema das enchentes.

O parque, de 14 mil m2, só ficaria pronto em 1938, sob a denominação de Jardim de Alá – uma referência ao filme homônimo norte-americano estrelado por Marlene Dietrich e lançado dois anos antes. O projeto, comandado por David Xavier de Azambuja, baseou-se em desenhos paisagísticos do arquiteto francês Alfred Agache, responsável à época pela elaboração de um plano urbanístico para o Rio de Janeiro.

Em estilo art déco, a arquitetura voltava-se à criação de um espaço romântico, com cais, deques, lagos, canteiros, esculturas, bancos ao abrigo de caramanchões e brinquedos. Ainda no ano de inauguração, uma ponte executada sobre o canal, ligando a Visconde de Pirajá à Avenida Ataulfo de Paiva, interrompeu o tráfego de bonde pela orla.

No conjunto de praças, encontram-se um monumento ao Almirante Saldanha da Gama – um imponente obelisco em pedra e bronze, de autoria do escultor Antônio Caringi, em alusão à vitória brasileira na Batalha do Riachuelo –, um busto do Marechal Eurico Gaspar Dutra em bronze e granito, concebido pelo artista Santos Leal, e as esculturas “Proteção” e “Mulher e Felino”. A arborização é composta, essencialmente, por amendoeiras, abricós-da-praia e sibipirunas.

Hoje, o parque é frequentado predominantemente pelos donos de cachorros da vizinhança, que fazem a festa nos jardins (muito utilizados para filmagens e eventos, como a montagem do presépio natalino), e praticantes de tai chi chuan. Se os passeios de gôndola não se tornaram realidade, a população carioca e seus visitantes puderam, entre 1950 e 1960, alugar pedalinhos para navegar pelo canal – atividade suspensa pelos assoreamentos –, contemplando a magnífica vista do jardim (tema de filme de David Neves, lançado em 1988).

Era um ambiente que, muito tempo depois, continuava a atrair Millôr, nascido no Méier, mas morador de uma cobertura em Ipanema até sua morte, em 2012. O desenhista e escritor gostava de caminhar pelo Jardim de Alá, que considerava um paraíso – “o tráfego de longe, você vê o Corcovado sem um prédio na frente”, chegou a explicar a preferência. Diga lá: o parque tem ou não tem credenciais de sobra?

Jardim de Alá
Divisa entre os bairros de Ipanema e Leblon