Ilha na Baía de Guanabara abrigou a primeira colônia nudista da América Latina

“Atenção: é expressamente proibido pisar o solo desta ilha usando qualquer peça de roupa ou portando máquina fotográfica”, advertia o cartaz na entrada da Ilha do Sol, pertencente ao arquipélago de Paquetá. Lá, morava Dora Vivacqua, nascida em 1917 numa família influente de Cachoeiro de Itapemirim, educada em colégio de freiras e bacharel em Ciências e Letras. Mas esse figurino de mulher certinha ficou apertado naquela alma indômita de artista.

Aos 21 anos, ela veio para o Rio e começou a trabalhar em circo, sob o pseudônimo de Luz Divina. Só na década de 50 estrearia no Teatro Recreio, na Praça Tiradentes. Mas que estreia! Já como Luz Del Fuego – nome de um batom argentino –, tornou-se a primeira atriz a dançar nua em um palco no Brasil. E, mais audácia ainda, enroscada por cobras – as jiboias Cornélio e Castorina –, devidamente ensaiadas para as exóticas performances nos espetáculos de revista. Era um furor junto ao público, não obstante as acusações de atentado aos bons costumes e as repressões pelas autoridades, numa época anterior ao maiô de duas peças!

Já quarentona e vedete estelar em todo o país, tendo excursionado até por danceterias nos Estados Unidos e na Europa, deixou sua mansão na Avenida Niemeyer, indo morar numa ilha na Baía de Guanabara com menos de 1 km², a meia hora da Praça XV. A “bailarina do povo” converteu Tapuamas de Dentro, que ficaria conhecida como Ilha do Sol, na primeira colônia nudista da América Latina. O local virou atração turística, cuja fama correu mundo, chegando a receber estrelas como Ava Gardner, Lana Turner, Errol Flynn e Steve McQueen. O Clube Naturalista Brasileiro chegou a contabilizar mais de 200 intrépidos sócios. Eventos como bailes com músicos trajados apenas de gravatas borboletas ajudavam na manutenção da colônia, enfim desativada no início da década de 60.

Luz Del Fuego morreu aos 50 anos, assassinada por dois pescadores que achavam que ela guardava muito dinheiro em casa. Hoje, remanescem os escombros das edificações – paredes, lajes, terraço, escadas e azulejos que resistem em pé e até o reservatório onde se captavam as águas pluviais – em meio à vegetação de cactos na região predominantemente rochosa. É possível conhecer as ruínas por meio de barquinhos de pescadores que fazem a travessia de Paquetá até a Ilha do Sol (os mais aventureiros vão de caiaque!). Lá, o melhor é caminhar entre as pedras sobre o oceano que testemunharam os passos libertários de Luz em seu paraíso.

Ilha do Sol – Baía de Guanabara
Acesso por barquinhos de pescadores a partir de Paquetá