Fachada de jornal que marcou carreira do escritor segue preservada na Gomes Freire

Era o Correio da Manhã ou nada. Nenhuma outra imagem na Cidade Maravilhosa está gravada tão fundo nas retinas do mineiro de Caratinga como a fachada do edifício onde iniciou sua prodigiosa carreira jornalística. O jornal, que circulou entre 1901 e 1974 – os últimos 30 anos a partir da Avenida Gomes Freire 471 –, marcou apaixonadamente a vida de Ruy Castro. Melhor então deixar que o próprio mestre, cidadão benemérito do Rio de Janeiro, descreva seu portal encantado:

“Nasci ali – não numa clínica qualquer ou na casa dos meus pais, mas entre as mesas de metal, máquinas de escrever, laudas de 20 linhas e um bando de gente que eu admirava havia muito tempo. Eu tinha 19 anos. Aos seis ou sete, decidi que iria ser jornalista. Do Correio da Manhã. O dia e mês oficiais do parto foram 1o de março de 1967. José Lino, editorialista do jornal, me apresentou ao redator-chefe Newton Rodrigues. Ele confiou em José Lino e me admitiu como repórter. Comecei no dia seguinte. Dois meses depois, publiquei minha primeira matéria assinada na capa do Segundo Caderno, sobre os 30 anos da morte de Noel Rosa.

A Lapa em si era uma extensão de mim. Meus pais tiveram uma pensão diurna no Largo da Lapa nos anos 40. Almoçava com meu pai no Bar Brasil. No Correio, conheci Ismael Silva e Nelson Cavaquinho, que moravam na Gomes Freire e iam sempre para lá no fim da tarde, para desespero dos mais velhos, que estavam no meio do fechamento. Eu descia para beber com Ismael e Nelson no botequim ao lado do Hotel Marialva. Eles tomavam conhaque e eu, Crush – até que me manquei. Pelo Correio, entrevistei Kim Novak no Galeão.

Fui preso como estudante numa passeata em abril de 1967 e levado para o Dops, que ficava na esquina da Rua da Relação, na diagonal do próprio Correio. Graças à interferência do senador Mário Martins, me soltaram algumas horas depois, por ser repórter do Correio da Manhã. No dia 13 de dezembro de 1968, houve o Ato 5. Eu estava na rua e voltando para o jornal quando a invasão aconteceu. Não pude entrar. Na calçada, vi Oswaldo Peralva, nosso superintendente, sendo levado preso.

Meu chefe, Paulo Francis, também foi detido no dia seguinte. Minha amiga Germana de Lamare, que o substituiu, disse que meu nome estava numa lista negra. Foi o fim do Correio da Manhã – para mim e para o próprio. O jornal, que foi arrendado a estranhos e circularia com esse título e no mesmo endereço até 1974, quando fechou, já não era o verdadeiro Correio da Manhã.

O prédio foi abandonado. Passaram-se mais de 20 anos. Árvores nasceram dentro dele. A garagem virara um estacionamento de carrinhos de pipoca. Eu passava em frente àquela ruína e não me conformava. Ali funcionara o maior jornal do País durante três décadas, sucedendo suas redações anteriores, na rua do Ouvidor e no Largo da Carioca. Não sei como não derrubaram o prédio.

Até que, em princípios dos anos 2000, ele começou a ser restaurado. Uma repartição qualquer iria funcionar lá. Temi por uma descaracterização total. Mas a porta de ferro com o monograma “CM” foi conservada. A fachada, também. E, no alto dela, pode-se ler, como sempre, CORREIO DA MANHÃ. Para mim, bastou. Passo em frente, contemplo apaixonado o monograma na porta, lambo com os olhos a fachada – e a memória e o coração me trazem o jornal de volta.”
Chega de saudade? Não, se a história é lindamente contada pelo nosso Ruy.

Fachada do Correio da Manhã
Avenida Gomes Freire, 471 – Lapa