No pavilhão verde e branco é carnaval o ano todo

A professora de música Lucília Guimarães, esposa de Heitor Villa-Lobos, logo notou o dom especial de uma de suas alunas adolescentes na Escola Municipal Orsina da Fonseca, no bairro da Tijuca. A garota de voz afinada chegou até a cantar sob a regência do maestro, recebendo dele palavras incentivadoras para apostar na vocação. Ao concluir o curso secundário, a estudante começou a aprender cavaquinho com um tio, que tocava num grupo de chorões integrado por Pixinguinha e Donga.

Mas ainda ia levar um tempo para que todo aquele talento se revelasse ao grande público. Aos 25 anos, casada e residindo em Madureira, Ivone começou a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha, presidida pelo sogro. E a criar sambas e partidos-altos, apresentados à galera como se fossem do primo Fuleiro, também compositor, uma vez que, nos idos de 1945, mulher sambista nem pensar! Ela se formou em Assistência Social, tendo atuado na equipe da doutora Nise da Silveira no Instituto de Psiquiatria do Engenho de Dentro.

Em paralelo, ia estreitando o contato junto a Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira. Com os futuros parceiros, se transferiria para a Império Serrano – fundada em 1947 no mesmo bairro a partir de uma dissidência na Prazer da Serrinha –, ingressando na ala dos compositores. Dona Ivone Lara se tornaria a primeira mulher a transpor a barreira machista, ao faturar (ao lado de Silas e Bacalhau) o melhor samba-enredo de 1965. Foi na agremiação que Adelzon Alves e Sargentelli perceberam o enorme potencial da artista, produzindo seu primeiro disco em 1970.

A verde e branco se consagraria como uma das principais escolas de samba do Rio, contabilizando até hoje nove títulos de campeã e dez de vice. Afinal, que carioca não sabe cantarolar “Vejam essa maravilha de cenário…”, o samba-enredo “Aquarela brasileira”, de Silas de Oliveira, que sacudiu a Sapucaí por duas vezes, em 1964 e 2004? Ou o contagiante “Bumbum paticumbum prugurundum”, de Beto Sem Braço e Aluísio Machado, com o qual a escola sairia campeã do desfile de 1982?

Em sua sede, ao lado da Estação Mercadão de Madureira, rolam eventos o ano todo. Além dos tradicionais ensaios de rua, sob a cadência da premiada bateria Sinfônica do Samba, a programação (disponível nas redes sociais), inclui feijoada; cozido das passistas; shows como os de Alcione, Diogo Nogueira e Xande de Pilares; rodas de samba; bazar com expositores de moda, artesanato e gastronomia; e festa junina.

Há, ainda, a tradicional Carreata de São Jorge, com bênção e saudação à imagem do padroeiro do pavilhão na quadra, seguidas de trajeto pelas ruas e paradas em cinco pontos: Paróquia São Jorge (Quintino), Clube da Esquina e Centro Espírita Caminheiros da Verdade (Engenho de Dentro), Quadra da Imperatriz Leopoldinense (Ramos) e Morro da Serrinha, em Madureira. Na volta à sede, é servida uma feijoada aos participantes, embalada a muito samba. São ou não são programas que merecem o título de aquarela carioca?

Império Serrano
Avenida Ministro Edgard Romero, 114 – Madureira
Tel.: (21) 3124-3475