Beco dos Barbeiros esconde manjar que encantava o colunista

A elegância em pessoa no meio jornalístico, ele circulava nas rodas aristocráticas do Rio e do mundo, sempre com incursões pelos circuitos gastro-borbulhantes de Paris. Mas, acostumado a cavar notícias frescas para suas colunas e a descobrir como ninguém onde o furo se maloca, Zózimo estava por dentro também das quebradas onde se aninhavam os manás opulentos. No Centro, onde trabalhava em O Globo, um cep muito frequentado era o do Beco dos Barbeiros.

Situado numa estreita passagem entre as Ruas do Carmo e Primeiro de Março, o beco foi assim chamado por acolher os profissionais-mãos de tesoura e navalha no século XVIII, durante a Inconfidência. Mais tarde, a partir da debandada dos barbeiros, a paisagem foi sendo tomada por bares e restaurantes com mesinhas do lado de fora. Como a Costela do
Beco (antigo Escondinho), inaugurada – primeiramente como uma lojinha de sanduíches – em 1947, conforme estampado na porta de vidro, pelo casal Delfim (português) e Lurdes (mineira) Felgueiras.

No ambiente simples, dividido em dois andares, Zózimo relaxava um pouco das pressões da coluna diária, refestelando-se na costela bovina com feijão manteiga e farofa de ovos, o carro-chefe da casa. O segredo do sucesso da peça de carne – cuja fama de derreter na boca de tão macia costumava atrair outros peritos do garfo, como Carlos Lessa, Jaguar e até Jorge Amado – começa pelo corte bem específico, o miolo da costela, assado no forno por quatro horas em média. O manjar pode vir acompanhado também por agrião e aipim frito.

A tradicional clientela – a qual se incorporou uma nova geração de advogados e profissionais do mercado financeiro – faz fila também para degustar a cabeça de peixe, mais uma especialidade cheia de manha. Para confeccioná-la, é necessário um badejo ou cherne com no mínimo 12 kg, já que se corta a cabeça até o dorso. Chega à mesa guarnecida de pirão e camarões.

O restaurante, que oferece um imperdível croquete de costela no couvert, apresenta uma série de pratos igualmente fartos. Destaque para as costeletas de porco à mineira, moqueca de peixe, bacalhau à portuguesa, polvo com arroz de brócolis, supremo de frango com arroz à grega e picanha à moda. O menu executivo abarca escondidinho de costela, rabada com polenta e agrião, estrogonofe de carne ou frango, carré à mineira, filé de peixe grelhado com purê e arroz, frango ao molho pardo e churrasco misto.

Na seção sobremesas, o mineiro de botas é um espetáculo harmonioso: banana, goiabada e queijo flambados em licor Cointreau diante do freguês. Há, ainda, um doce de marmelo da casa – cozinhando-se a fruta em ponto de compota –, guarnecido de catupiry. Como nem só de champanhe vivia Zózimo, ele tinha à disposição uma lauta carta de bebidas para escoltar o banquete, incluindo cervejas, cachaças artesanais e vinhos nacionais e importados. À saída, a visão da arquitetura barroca da Igreja da Ordem Terceira do Carmo coroava o almoço do colunista, antes de voltar à redação para nos brindar com notas deliciosas no jornal do dia seguinte.

Costela do Beco (Escondidinho)
Beco dos Barbeiros – Centro
Tel.: (21) 2242-2234