Instituição filantrópica no Centro preserva relíquias oitocentistas

O papa da cirurgia plástica mundial dividia o tempo entre três de seus recantos: a residência na Gávea, a paradisíaca Ilha dos Porcos Grande em Angra dos Reis (onde foram lançadas suas cinzas) e a renomada clínica da Rua Dona Mariana, em Botafogo. Sophia Loren, Marisa Berenson, Nick Lauda, Sonia Braga e Vera Fisher pertencem à extensa lista de celebridades que se entregaram às mãos santas do “Rodin do bisturi”, em sete décadas de medicina.

Mas, no meio do caminho, tinha a Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, onde o aclamado Dr. Ivo Pitanguy atendia gratuitamente, às quartas-feiras, pessoas que jamais teriam condições de pagar por suas milagrosas operações reparadoras. O imponente palacete da instituição filantrópica, fundada pelo jesuíta José de Anchieta em 1582 no então Morro do Castelo, preserva relíquias desconhecidas até dos próprios cariocas.

Ao longo dos séculos, a edificação passou por obras de reforma e ampliação, tendo sido lançada em 1840, na presença do Imperador Pedro II, a pedra fundamental do Hospital Geral – hoje tombado pelo Iphan. A fachada em estilo neoclássico foi concebida pelo arquiteto José Maria Jacinto Rebelo, discípulo de Grandjean de Montigny. Ele projetou um grande pórtico com dupla colunata de cantaria e frontão triangular ornamentado por baixos-relevos do artista Luis Giudice (este trabalho, executado em 1868, é considerado um dos principais do gênero na cidade).

O frontão compõe-se de três painéis: um medalhão central – onde se insere o brasão da Ordem da Irmandade da Misericórdia – e duas flâmulas laterais simétricas, distinguindo-se símbolos remetentes à religião, à morte e à medicina. Na parte inferior, entre dois escudos, veem-se as setas do mártir São Sebastião, padroeiro do Rio.

O interior da Santa Casa – formada por três alas paralelas, onde ficam as enfermarias, separadas por pátios conectados entre si – é igualmente valioso. Assim demonstram as extensas barras de azulejos holandeses, franceses e portugueses nos corredores de circulação e nas escadas, além de telas setecentistas e oitocentistas, entre as mais antigas de todo o acervo da cidade. Há, também, uma capela e o Museu da Farmácia.

A tranquilidade da Rua Santa Luzia, sombreada por árvores frondosas, é um convite adicional a que se conheça mais de perto o lugar onde Ivo Pitanguy dedicou tanto de seu precioso tempo. Artífice de um legado inestimável, o professor imortal – que ocupou a cadeira 22 da ABL – nos deixou aos 90 anos, de parada cardíaca, em 6 de agosto de 2016. Um dia antes, havia carregado, em cadeira de rodas, a tocha olímpica no revezamento pela Zona Sul da cidade. Subiu ao céu, como sempre, iluminado.

Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro
Rua Santa Luzia, 206 – Centro
Tel.: (21) 2219-8641