Um recanto que se transformou em referência arquitetônica na região boêmia

Nosso eterno Orfeu – protagonista da icônica peça de Vinicius de Moraes, montada no Teatro Municipal com a Orquestra Sinfônica em 1956 – veio à luz em Piedade, na Zona Norte. Por volta dos dez anos, foi morar com o pai (a mãe já falecida) em pleno bairro boêmio da Lapa. “Comecei bem, não?” – brinca o querido jornalista, ator, escritor e produtor cultural. Hoje, do alto de suas 89 primaveras e uma trajetória dedicada a espetáculos e textos de perfil essencialmente brasileiro aqui e no exterior, Haroldo Costa é só carinho em relação a esse pedaço tão especial do Rio, o Largo da Lapa.

Ele recorda: “Nossa casa se localizava na Rua Joaquim Silva, atrás da atual Sala Cecília Meireles, onde era o Cinema Colonial, que lançava os filmes da Atlântida. Por acaso, alguém saberia me dizer como se chega a Areias de Espanha? Com certeza, a resposta viria com um ‘nunca ouvi falar’. Na área praiana, que começou a ser povoada a partir da chegada da Família Real, frades carmelitas ergueram a Igreja Nossa Senhora do Carmo da Lapa do Desterro – tombada pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e que merece uma visita. E assim nasceu o Largo da Lapa, que foi se tornando um conglomerado de casas residenciais e, depois, cabarés e dancings.”

No período momesco, a região era o epicentro dos blocos de sujos, que se transformaram em ranchos e sociedades carnavalescas. “A mais importante historicamente foi a Tenentes do Diabo. Em sua sede, na rua Visconde de Maranguape – onde pode ser visto o belo Lampadário executado por Rodolfo Bernadelli, em 1906, na gestão de Pereira Passos –, realizaram-se muitas reuniões com jornalistas e escritores abolicionistas e republicanos. No Largo da Lapa, a partir dos anos 30, ficava o ponto terminal dos bondes que iam para o Centro da cidade, Botafogo, Catete, Flamengo, Laranjeiras e Cosme Velho.”

Haroldo prossegue: “No quadrilátero do Largo, três cabarés animavam as noites com música ao vivo e moças mais ‘vivas’ ainda, que alimentavam o sonho dos exibidos cavalheiros, entre tangos, sambas e boleros. Pelas calçadas e bares, circulavam músicos como Geraldo Pereira, Noel Rosa, Wilson Batista, Lupicínio Rodrigues, Lamartine Babo, Ataulfo Alves, Villa- Lobos e Guerra Peixe.”

Cartão-postal do bairro, os Arcos da Lapa – antigo Aqueduto da Carioca, em estilo românico, com a função de abastecer a população da cidade – foram considerados a maior obra de engenharia do regime colonial. Ao lado da erudita Sala Cecília Meireles, funciona – num casarão de fins do século XIX, com a fachada preservada – o popular Bar Ernesto, tradição de mais de 80 anos em culinária alemã. Nas redondezas, proliferam bares com música ao vivo. “Para o carnaval de 1949, lembra o produtor, Herivelto Martins e Benedito Lacerda fizeram um samba que se eternizou pelo primeiro verso: a Lapa está voltando a ser a Lapa… Pois é, a Lapa continua”. Firme e cada vez mais forte.

Largo da Lapa – Centro